Suspensão da UE preocupa setores de carne, frango e mel; entidades tentam reverter bloqueio

Por: Rogério Cabral

Entidades dos setores atingidos pela suspensão das importações de produtos brasileiros de origem animal pela União Europeia manifestaram preocupação com a medida e acompanham as negociações conduzidas pelo governo brasileiro para tentar restabelecer o comércio com o bloco.

A restrição deve entrar em vigor nesta quinta-feira (3) e alcança produtos como carnes bovina e de aves, ovos, mel, peixes e animais vivos destinados à produção de alimentos. A União Europeia relaciona a decisão às exigências de controle do uso de antimicrobianos na produção animal.

Nos últimos dias, uma missão europeia esteve no Brasil para avaliar os sistemas de controle adotados pelo país. Os técnicos analisaram produtores e estabelecimentos brasileiros para verificar o cumprimento das regras relacionadas aos antimicrobianos.

Carne bovina vê suspensão com preocupação

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) afirmou que vê com preocupação a interrupção das exportações brasileiras de carne bovina para a União Europeia e informou que os esforços estão concentrados na reinclusão do Brasil na lista de países autorizados a fornecer o produto ao bloco.

Segundo a entidade, as garantias oficiais do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) já foram apresentadas às autoridades europeias. A Abiec também informou que vem fornecendo subsídios técnicos ao governo para tentar restabelecer o fluxo comercial no menor prazo possível.

A iniciativa privada também desenvolveu um protocolo de controle do uso de antimicrobianos, elaborado pela Abiec, Associação Brasileira das Certificadoras por Auditoria e Rastreabilidade (ABCAR) e Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). De acordo com a Abiec, todas as empresas associadas habilitadas a exportar para o mercado europeu já aderiram ao protocolo.

A entidade ressalta que a União Europeia é considerada estratégica pelo alto valor agregado e pelo perfil dos cortes comercializados. Embora a carne possa continuar sendo direcionada aos mercados nos quais o Brasil está habilitado, a associação afirma que não existe substituição automática do mercado europeu, já que os destinos demandam produtos e cortes diferentes.

Setor de aves aguarda resultado de missão europeia

Na avicultura, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) acompanha as tratativas e tem fornecido informações ao governo brasileiro durante a missão europeia.

O presidente da entidade, Ricardo Santin, afirmou que o Brasil já cumpre as regras relacionadas ao não uso de antimicrobianos na produção dos frangos exportados para a Europa e que, segundo o setor, não há violação das exigências.

“A investigação vem tratar somente de um nível de fiscalização a mais exigido pela Europa e negociado com o governo brasileiro”, afirmou.

Santin avaliou como satisfatória a missão realizada no país e disse que o setor aguarda agora o resultado das negociações entre os governos brasileiro e europeu.

Produtores de mel tentam reverter bloqueio

A cadeia do mel também busca uma solução junto ao governo. O presidente da Confederação Brasileira de Apicultura (CBA), Sergio Farias, afirmou que o setor apresentou a situação ao Ministério da Agricultura ainda em julho e defende um tratamento específico para o produto brasileiro.

Segundo Farias, não há registros de uso de antibióticos ou outros medicamentos relacionados às questões levantadas pela União Europeia na produção brasileira de mel. Para ele, o produto pode ter sido incluído na restrição por fazer parte do conjunto de produtos de origem animal.

O dirigente afirmou acreditar que o setor conseguirá superar a barreira, mas reconheceu a incerteza sobre a possibilidade de uma solução antes da entrada em vigor da suspensão.

“Eu acredito que nós vamos vencer, nós da apicultura e meliponicultura, vamos vencer essa barreira. Agora, não sabemos se no dia 3 vai dar tempo”, afirmou.

Piscicultura não prevê impacto imediato

Para a piscicultura, a nova medida não deve provocar perdas imediatas. Segundo o presidente da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), Francisco Medeiros, o pescado brasileiro já está com as exportações para a União Europeia suspensas desde 2018.

Por isso, atualmente não existe volume comercializado pelo setor com o bloco que possa ser diretamente afetado pela nova decisão.

A preocupação está no médio e longo prazo. Medeiros lembrou que uma missão europeia esteve recentemente no Brasil para avaliar as condições de produção com vistas à retomada das importações.

“Nesse momento, não há nenhum impacto para a atividade no Brasil, porque estamos há oito anos sem exportar para a União Europeia”, afirmou.

Mercado europeu tem peso estratégico

Apesar de a União Europeia não ser o principal destino das carnes brasileiras em volume, o bloco tem importância pelo valor dos produtos comercializados. No caso da carne bovina, o Brasil exportou 108,6 mil toneladas para o mercado europeu em 2025, cerca de 3,5% das exportações totais, mas o destino respondeu por aproximadamente 5,5% da receita externa do setor.

Estimativas citadas anteriormente apontam que a suspensão envolvendo carnes, ovos e mel pode colocar em risco cerca de US$ 1,8 bilhão por ano em exportações brasileiras. Além da receita, entidades do setor acompanham possíveis efeitos da decisão sobre a imagem dos produtos brasileiros em outros mercados importadores.

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