Abrapa pede valorização de fibras naturais em debate sobre importações

Por: Rogério Cabral

A Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) defende que o debate sobre a chamada “MP das blusinhas” considere não apenas os efeitos tributários das importações, mas também a competitividade da indústria nacional e o avanço das fibras sintéticas no mercado brasileiro.

A entidade acompanha a tramitação da Medida Provisória nº 1.357/2026, que precisa ser analisada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado no início de setembro para não perder a validade.

Editada pelo governo federal em maio, a MP zera o Imposto de Importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 feitas pela internet. Caso não seja aprovada pelo Congresso dentro do prazo, a alíquota de 20% volta a valer para essas operações.

Para o presidente da Abrapa, Gustavo Piccoli, a discussão precisa considerar os efeitos da medida sobre toda a cadeia produtiva. “Não se trata apenas de uma discussão tributária. É uma discussão sobre competitividade, sustentabilidade e sobre o futuro da cadeia têxtil brasileira”, afirma.

Segundo a entidade, o Brasil tem a quinta maior indústria têxtil do mundo e a maior cadeia completa e verticalizada do Ocidente, que reúne produção de matéria-prima, fabricação e comercialização. O setor gera mais de 1,3 milhão de empregos diretos e tem impacto econômico indireto para mais de 8 milhões de famílias.

A Abrapa afirma que não é contrária às importações ou à concorrência, mas defende condições consideradas mais equilibradas entre produtos nacionais e estrangeiros.

“Enquanto produtos importados podem chegar ao mercado brasileiro beneficiados pela desoneração, quem produz, investe e gera empregos no país permanece submetido à carga tributária nacional e a um conjunto de normas, controles e exigências regulatórias. Entendemos que essa diferença de condições também deve fazer parte do debate no Congresso”, diz Piccoli.

Tributação de fibras sintéticas

Dentro da discussão da MP, a Abrapa apoia a Emenda nº 52, de autoria do senador Carlos Fávaro (PSD-MT), que propõe a criação da CIDE-Têxtil. A medida prevê uma tributação progressiva sobre produtos têxteis acabados importados conforme a participação de fibras sintéticas na composição.

A proposta estabelece alíquota de 2% para produtos com até 20% de fibras sintéticas; 5% para aqueles com participação entre 20% e 50%; 8% para produtos entre 50% e 80%; e 10% para itens com mais de 80% de fibras sintéticas.

De acordo com a Abrapa, a medida pode funcionar como um instrumento de indução econômica para estimular o uso de materiais de menor impacto ambiental e fortalecer as fibras naturais produzidas no país.

Além do algodão, a proposta alcança cadeias como seda, linho, sisal e juta, que têm participação na geração de empregos no campo e no desenvolvimento de economias regionais.

A entidade também destaca que a CIDE-Têxtil prevê recursos para ações ligadas à agricultura sustentável, economia circular, ecodesign, inovação e desenvolvimento de materiais de menor impacto ambiental.

“Estamos à disposição do Parlamento para esclarecer dúvidas, compartilhar informações técnicas e contribuir para um diálogo qualificado sobre sustentabilidade da cadeia têxtil”, afirma Piccoli.

Avanço das fibras sintéticas

Outro ponto levantado pela Abrapa é o crescimento do uso de fibras sintéticas derivadas do petróleo, como poliéster, nylon e acrílico.

A entidade chama atenção para a liberação de microplásticos durante o uso, a lavagem e o descarte de roupas produzidas com esses materiais. Segundo a associação, estudos científicos já identificaram microplásticos no organismo humano, o que amplia as discussões sobre os impactos ambientais e possíveis efeitos à saúde.

A Abrapa também aderiu a uma Nota de Conscientização sobre micro e nanoplásticos, que defende maior prevenção, avanço das pesquisas e políticas públicas para reduzir a exposição da população a essas partículas.

Para o diretor-executivo da entidade, Marcio Portocarrero, o debate sobre a MP é uma oportunidade para ampliar a discussão sobre os impactos das escolhas de consumo.

“Somos uma potência mundial na produção de uma fibra natural e renovável, enquanto ampliamos nossa dependência de fibras sintéticas importadas. É uma contradição que precisa fazer parte desse debate”, afirma.

Segundo a Abrapa, o Brasil se consolidou como líder mundial nas exportações de algodão, de acordo com o Relatório de Safra 2025/2026 da entidade. A associação defende que a posição brasileira também seja considerada na formulação de políticas para o mercado interno.

Para Portocarrero, a entidade continuará contribuindo com o Congresso na discussão sobre sustentabilidade, competitividade e valorização das fibras naturais na cadeia têxtil.

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