Como a saúde bucal do boi impacta na produtividade do rebanho?

Por: Rogério Cabral

A saúde bucal dos bovinos pode indicar problemas que afetam a produtividade do rebanho. Lesões na gengiva, retração gengival, raízes dentárias expostas e desgaste excessivo dos dentes podem provocar dor e dificultar a alimentação dos animais. Segundo o médico-veterinário Iveraldo Dutra, especialista em saúde e bem-estar animal, cerca de vinte por cento dos bovinos avaliados apresentam lesões graves na boca.

O alerta foi gerado a partir de estudos sobre saúde bucal de bovinos, incluindo a análise de mais de mil animais em rebanhos de Goiás. As alterações identificadas podem comprometer a eficiência alimentar e, consequentemente, o desempenho produtivo na pecuária de corte e leite. “A saúde bucal é essencial para eu ter o melhor desempenho, a melhor condição de bem-estar animal”, afirmou Dutra durante entrevista ao Giro do Boi.

Confira:

Sinais de problemas bucais

Entre os sinais que exigem atenção estão a retração da gengiva, a exposição da raiz dentária, dentes soltos ou quebrados, desgaste irregular e inchaços associados a infecções. Essas alterações podem evoluir para doenças periodontais, abscessos e inflamações que afetam os tecidos de sustentação dos dentes. Dutra informa que a exposição da raiz dentária é um sinal importante, pois pode causar dor durante atividades básicas, como beber água e pastar.

O desconforto na boca pode reduzir a capacidade do animal em apreender o alimento, prejudicando a mastigação e a ruminação. “Esses animais têm dor ao ingerir água, têm dor ao pastar”, explicou o especialista. Essa situação pode afetar a eficiência alimentar e o desempenho do rebanho, impactando diretamente na produtividade.

A importância da avaliação dentária

Dutra destaca que a avaliação da boca deve ser parte de uma análise mais ampla da saúde do rebanho, que inclui as condições das pastagens, a suplementação e a disponibilidade de água. A alimentação dos bovinos é diretamente influenciada pela condição dentária, uma vez que os dentes e os movimentos de mastigação são fundamentais para o processamento do alimento.

Uma vaca pode realizar cerca de trinta mil bocados por dia, o que torna essencial a manutenção da saúde bucal. Problemas dentários podem comprometer o consumo e, consequentemente, a produção de leite na pecuária leiteira, além de prejudicar o desenvolvimento e o ganho de peso na pecuária de corte.

Rotina de avaliação e prevenção

Dutra sugere que o pecuarista estabeleça uma rotina de avaliação da dentição, considerando as categorias animais e as características do sistema de produção. A proposta não é ter um dentista bovino na fazenda, mas sim adotar métodos de observação que ajudem a identificar alterações e orientar medidas preventivas.

“Uma das questões é nunca deixar de olhar a saúde bucal, porque isso faz diferença no lote”, afirmou o especialista. Além disso, ele mencionou uma metodologia desenvolvida ao longo de quinze anos que permite avaliar a condição dentária dos animais, utilizando o aplicativo Rumidente para registrar imagens e auxiliar na avaliação.

Identificação de problemas e tecnologias

A avaliação da boca ajuda a identificar problemas que nem sempre são evidentes na rotina da fazenda. Os bovinos não conseguem expressar verbalmente a dor, o que torna fundamental que o produtor e a equipe da fazenda reconheçam sinais físicos e comportamentais. “O boi é submisso à gente”, disse Dutra, enfatizando a responsabilidade do manejo no cuidado com a saúde dos animais.

O cuidado com a dentição deve integrar as práticas de prevenção, nutrição e bem-estar, permitindo investigar causas de lesões e avaliar medidas necessárias para reduzir o sofrimento dos bovinos. Para o especialista, observar a boca do boi é uma forma de ampliar a avaliação sanitária do rebanho e identificar fatores que podem interferir na eficiência produtiva ao longo da vida do animal.

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