‘Sempre fui do agro e agora sigo ao lado dos meus filhos’: sojicultor faz da própria história um símbolo de sucessão familiar

Por: Rogério Cabral
Arquivo Antônio

Nascido em Rio Verde (GO), o engenheiro agrônomo e produtor rural Antônio Pimenta, de 67 anos, construiu uma trajetória de décadas ligada ao agronegócio. Filho e neto de agricultores, cresceu em uma família que, segundo ele, está entre as fundadoras do município e mantém até hoje uma ligação direta com a atividade rural.

Pimenta deixou o município para estudar em Goiânia por motivos familiares e permaneceu na capital até concluir Engenharia Agronômica pela Universidade Federal de Goiás, em 1983. A princípio, pretendia trabalhar com o pai, que já era agricultor e pecuarista, mas decidiu seguir carreira própria.

Trajetória: o passo a passo até a soja

O primeiro passo profissional foi em uma cooperativa de Rio Verde, onde permaneceu por 12 anos. Durante esse período, teve contato com diferentes atividades do agronegócio, como produção agrícola, reflorestamento, indústria de esmagamento de soja e produção de sementes.

“Fiquei lá por 12 anos e tive uma experiência profissional maravilhosa. Tive contato com todas as culturas, inclusive reflorestamento, indústria de esmagamento de soja e produção de sementes. Então, foi uma experiência muito boa”, afirma.

Foi também nesse período que Pimenta acompanhou a chegada de produtores do Sul do país ao Cerrado brasileiro. Segundo ele, a migração de agricultores principalmente do Rio Grande do Sul e do Paraná contribuiu para uma transformação profunda na agricultura da região.

“No início da década de 80, tive a oportunidade de receber esse pessoal aqui, de orientar. Foi uma experiência fantástica. Eles vieram para o Cerrado brasileiro fazer uma verdadeira revolução”, comenta.

O pai de Pimenta já plantava soja e trabalhava com confinamento de gado naquela época. Em 1996, depois da experiência na cooperativa, ele decidiu seguir também pelo caminho do empreendedorismo no agronegócio, atuando por 25 anos no setor de insumos agrícolas e sementes.

Em 1999, participou da fundação de uma empresa voltada à produção de sementes de soja, que chegou a representar, segundo ele, 25% do mercado goiano desse segmento. Ao longo dos anos, os negócios também envolveram lojas de insumos, transporte e armazenagem. Em 2020, Pimenta e seu único sócio venderam a totalidade dos negócios para uma empresa canadense.

“Eu só tinha um sócio nesse negócio, o Everaldo Barbosa Pereira, que até hoje é um grande amigo meu, um irmão. E nós tivemos a oportunidade de vender todo o negócio para uma empresa canadense”, afirma.

Depois da venda, Pimenta manteve o foco na atividade que sempre fez parte de sua vida. Hoje, trabalha ao lado dos três filhos em uma operação agrícola familiar. Lídia Pimenta Martins atua na área de governança, Marília Pimenta Martins cuida das finanças e Danilo Pimenta Martins, engenheiro agrônomo, é responsável pela operação. Antônio participa do conselho e continua contribuindo com diferentes áreas do negócio.

“Eu já sempre fui agricultor, continuei na agricultura. Hoje tenho uma empresa familiar com meus filhos. Eu fico no conselho, ajudando em todas as áreas que eu posso”, explica.

A produção da família está concentrada em Goiás e Tocantins. Em Rio Verde, Pimenta mantém a atividade agrícola ligada à região onde nasceu. No Tocantins, começou um projeto em 2011, inicialmente com a compra de áreas para investimento e arrendamento, até passar também a produzir em família.

A atuação no estado alcança a região de Porto Nacional e áreas próximas a Palmas, Silvanópolis e Santa Rosa. “Inicialmente eu comecei a comprar lá para investir, arrendava, e agora eu estou plantando também em família lá”, conta.

Trabalho com diferentes culturas

A soja é a principal cultura, mas a produção é diversificada com milho, sorgo, gergelim e feijão-mungo. A pecuária ocupa uma área menor, principalmente em locais onde não é possível plantar e para aproveitamento da palhada deixada pelas lavouras.

“A soja é a principal cultura da propriedade, mas também cultivamos milho, sorgo, gergelim e feijão-mungo, em uma estratégia de diversificação. A pecuária é pequena e se concentra nas áreas que não permitem o plantio, além de aproveitar a palhada que sobra da lavoura”, explica.

Modernização em campo

A tecnologia também faz parte da estratégia da família. Pimenta afirma que a produção utiliza equipamentos e soluções disponíveis no mercado mundial, além de consultorias especializadas em gestão, contabilidade, área fiscal e governança. A proposta, segundo ele, é conduzir a propriedade com estrutura e planejamento de empresa.

“Utilizamos tecnologias de ponta, com máquinas e equipamentos modernos, como plantadeiras e colheitadeiras. Também contamos com consultorias nas áreas contábil, fiscal e de governança, porque tratamos a propriedade como uma empresa”, afirma.

Os desafios pelo caminho

Apesar dos avanços tecnológicos e da diversificação, Pimenta aponta os custos como um dos principais desafios para quem produz. Segundo ele, os conflitos internacionais aumentaram a pressão sobre os preços dos fertilizantes e defensivos agrícolas.

“Hoje eu entendo que os grandes desafios da agricultura são os custos. Com essas guerras, complicou principalmente o custo de fertilizantes e defensivos também”, diz.

Para o produtor, porém, o principal gargalo atualmente está nos juros. O custo elevado do crédito, afirma, tem pressionado a capacidade de investimento e levado a família a buscar maior independência dos bancos.

“Principalmente, hoje, o maior gargalo que nós temos no setor é a taxa de juros que a gente está sendo obrigado a pagar nos bancos. Realmente essa taxa está quase inviabilizando o negócio”, afirma.

Como estratégia, a família procura reduzir a dependência do crédito e antecipar compras sempre que possível, pagando à vista para diminuir os custos financeiros e manter a atividade.

Determinação no setor

Mesmo diante dos desafios, Pimenta vê um futuro de grande importância para o Brasil no agronegócio mundial. Para ele, a demanda por alimentos em países populosos, como China e Índia, mantém o país em uma posição estratégica no abastecimento global.

“O mundo precisa comer e o Brasil é o celeiro do mundo. Um país como a China, que tem população para alimentar, e a Índia é outro desafio. Eu acho que o futuro do Brasil vai continuar sendo muito importante”, afirma.

Para que esse potencial se concretize, no entanto, o produtor considera fundamental manter a atividade economicamente viável. Controle de custos, gestão e sucessão familiar estão entre os pontos que considera essenciais para a continuidade do negócio. “É preciso deixar o negócio viável, focando em custo, gestão e sucessão familiar. Meus três filhos estão no negócio”, destaca.

É justamente a participação dos filhos que, para Pimenta, representa uma das partes mais importantes de sua trajetória. Segundo ele, manter a próxima geração interessada em continuar no agronegócio é um desafio, inclusive em outros países, onde nem sempre os filhos desejam assumir os negócios da família.

Aos 67 anos, Pimenta diz que se sente realizado não apenas pelo caminho que percorreu, mas também pela possibilidade de continuar trabalhando no setor e construir o futuro ao lado dos filhos. “Sou muito realizado com o que eu faço e com o que eu pretendo fazer para o futuro do agro”, conclui.

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