A produtividade da soja não depende apenas da escolha de uma cultivar ou da aplicação de fertilizantes. Em Tatuí, no sudoeste paulista, a produtora rural Raquel Bueno de Miranda encontrou no manejo do solo o caminho para elevar os resultados da lavoura e alcançar a marca de 100 sacas por hectare. A mudança veio após a adoção de práticas agrícolas orientadas por análises técnicas e pelo acompanhamento do engenheiro agrônomo Leandro Barcelos, criador da metodologia A Raiz da Solução (ARDS).
A propriedade também cultiva milho, sorgo e trigo, mas a soja é a principal cultura de verão. Antes das mudanças implementadas nos últimos cinco anos, a produção enfrentava limitações relacionadas ao sistema de plantio convencional e à ausência de palhada, fatores que comprometiam o potencial produtivo da área.
“Antes, a gente ainda fazia sistema de plantio convencional, não tinha palhada e a produtividade era muito baixa em vista da nossa realidade hoje na propriedade”, relata Raquel à equipe do Soja Brasil.
Entre as principais mudanças adotadas estão as correções de solo com calcário e gesso, realizadas anualmente, e a implantação de plantas de cobertura, como a braquiária, durante a entressafra. O objetivo é elevar o pH do solo, ampliar a disponibilidade de cálcio e magnésio e melhorar as condições físicas para o desenvolvimento das raízes.
O trabalho também envolve cuidados com o plantio, a regulagem dos equipamentos e as pulverizações. A combinação dessas práticas contribuiu para a evolução dos resultados e para a construção de um sistema produtivo mais eficiente.
- Fique por dentro das principais notícias sobre a soja: acesse a comunidade Soja Brasil no WhatsApp!
O que limita a produtividade?
A evolução da lavoura está relacionada à metodologia A Raiz da Solução (ARDS), desenvolvida pelo engenheiro agrônomo Leandro Barcelos. Com a adoção da abordagem, Raquel alcançou média de 97 sacas por hectare na safra 2021/22. Na área inscrita no Desafio de Máxima Produtividade do Comitê Estratégico Soja Brasil (CESB), o resultado chegou a 105 sacas por hectare no mesmo ciclo. “Com a visão do Leandro, eu descobri que eu tinha um tesouro na mão”, resume a produtora.
Segundo Barcelos, o diferencial da metodologia está em identificar o estágio de desenvolvimento da lavoura e diagnosticar quais fatores estão limitando a produtividade. A análise considera as condições físicas, químicas e biológicas do solo, a fisiologia vegetal e a tecnologia das sementes.
“A metodologia ajuda a identificar o que está limitando a produtividade para investir certo, na hora certa. A gente entende que a raiz é a solução, porque é por ela que a planta absorve água e nutrientes. Para isso, precisamos oferecer condições adequadas para que ela cresça e explore o perfil do solo”, explica o agrônomo.
A partir do diagnóstico, o manejo é direcionado às necessidades específicas de cada área. Isso inclui definir quais corretivos e fertilizantes utilizar, em que quantidade e onde aplicá-los, além de escolher as plantas de cobertura e as culturas que melhor se complementam no sistema produtivo.
Para Barcelos, o planejamento também deve considerar a relação entre a cultura principal e as espécies cultivadas na entressafra. A escolha de plantas de cobertura capazes de aproveitar os nutrientes disponíveis e deixar benefícios para a soja seguinte pode contribuir para melhorar o desempenho das culturas e reduzir custos.
“Um dos maiores erros do agricultor é acreditar que um produto, como um aminoácido, vai fazer mágica na lavoura. O produtor procura uma solução rápida, mas isso não existe. Primeiro, precisamos preparar o solo e entender que os nutrientes têm que estar em equilíbrio”, afirma.
Na avaliação do engenheiro agrônomo, muitos produtores acabam buscando soluções para os sintomas sem identificar a origem do problema. Por isso, a recomendação é priorizar o diagnóstico e corrigir as limitações do solo antes de esperar que uma cultivar ou um insumo isolado produza resultados expressivos.
“Ele pensa muito na consequência e não na causa. O caminho é trabalhar o calcário, o gesso, as plantas de cobertura e o equilíbrio do solo. É assim que construímos um solo com vida e criamos condições para alcançar uma produtividade consistente”, destaca Barcelos.
Expansão da área exige planejamento
Os resultados obtidos na propriedade também deram segurança para Raquel ampliar a produção. A área cultivada passou de 33 para 65 hectares, com o arrendamento de outros 32 hectares.
Antes de assumir o contrato de cinco anos, a produtora realizou uma análise de solo para avaliar as condições da nova área e estimar os investimentos necessários. A decisão reflete uma preocupação que acompanha a expansão do negócio: equilibrar os custos de implantação com o retorno esperado.
“Na área arrendada, o maior desafio é o investimento e o retorno, para a gente ter segurança de continuar naquela área. Por isso, é importante analisar o solo e conseguir fazer o investimento certo para ter lucratividade”, afirma.
O cuidado com os custos ganha relevância diante do cenário de preços dos insumos e da dependência brasileira do mercado externo. Levantamentos da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apontam que 93% dos fertilizantes utilizados no país são importados, o que expõe os produtores às oscilações internacionais, às variações cambiais e a possíveis dificuldades de abastecimento.
Com as relações de troca pressionadas, o planejamento agronômico passa a ter papel ainda mais importante para direcionar os recursos às intervenções com maior potencial de retorno. A proposta, segundo Barcelos, é evitar investimentos baseados em receitas prontas e concentrar esforços nas necessidades reais de cada área.
Persistência e conhecimento
Além dos desafios técnicos e financeiros, Raquel destaca a trajetória pessoal até conquistar seu espaço na atividade rural. No início, ainda muito jovem, precisou superar inseguranças e demonstrar a própria capacidade para assumir responsabilidades na propriedade.
“O maior desafio foi no começo. Eu era muito jovem e tinha que provar para mim mesma que era capaz e também para os outros, estando à frente da propriedade rural e na lavoura”, conta.
O apoio da família, especialmente do pai, foi fundamental para que ela persistisse. A experiência adquirida no dia a dia, acompanhando o plantio, aprendendo a regular equipamentos e buscando conhecimento técnico, ajudou a construir sua confiança e ampliar sua atuação na produção.
Para os próximos anos, o objetivo é manter a produtividade e fortalecer a capacidade de enfrentar condições climáticas adversas. A estratégia inclui planejamento, avaliação dos investimentos e aplicação do conhecimento acumulado ao longo das safras.
“Meu objetivo é me manter na produtividade ao longo dos anos, com planejamento para enfrentar o clima adverso, fazendo as contas dos investimentos e colocando em prática todo o conhecimento que a gente adquire. É assim que buscamos essa resiliência que todo produtor almeja”, afirma.
A produtora também deixa uma mensagem a outros agricultores que buscam melhorar os resultados sem perder de vista a sustentabilidade econômica da atividade.
“A resiliência produtiva não acontece por acaso. Acontece a cada safra, com muita persistência. A produtividade é uma escada e, a cada ano, temos que subir um degrau. Para isso, precisamos mudar para obter resultados diferentes. Desejo uma excelente safra a todos”, conclui Raquel.